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O locutor da torcida brasileira

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo!

Por: Rubão - Publicado em: 26/03/2021 19:03

O locutor da torcida brasileira

Fonte:

Foi com Fiori Gigliotti que eu aprendi a amar o crepúsculo. Não sabia o significado da palavra, ouvia sua expressão dramática no entardecer, com um rádio de pilha no Jabaquara. Fui procurar o significado sozinho e adorei descobrir, passei a ter uma espécie de dor inexplicável quando passei a olhar mais atento o céu no final do jogo e do dia.

A partir dessa descoberta emocionada, dos significados maravilhosos do dicionário e o papel que ele podia desempenhar em nossas vidas, passei a buscar outras palavras e apresento o efeito desse encontro, com esta biografia de Fiori Gigliotti, o locutor da torcida brasileira, escrito por Mauro Betting e Paulo Rogério, com prefácio de Milton Neves.

A palavra se torna uma companhia para tudo, decifrar melhor os conflitos, identificar as dores e o mais importante, travar a luta em busca do amor pelo trabalho, pela vida e tudo que a torna encantadora, um domingo com futebol.  

O início persistente na emissora Lins Rádio clube permitiu que o jovem locutor transformasse sua fala em instrumento de trabalho e de sedução, os dois ao mesmo tempo, das partidas dramáticas aos amores nem sempre tão suaves.   Para atingir seu objetivo, buscou de todas as maneiras criar programas e inovações, procurando desenvolver sua própria narração futebolística. Indicado por Pedro Luiz foi para a capital fazer um teste nos estúdios da Rádio Bandeirantes.  Aprovado no teste, foi indicado para narrar uma partida entre Corinthians e Santos na Vila Belmiro. Os locutores da época tinham suas marcas e o jovem locutor não querendo copiar, resolveu desenvolver seus bordões.

O bordão é uma frase que cai no gosto popular, os seus passariam para a memória do rádio brasileiro e das emoções que o futebol podia proporcionar.  Inventou vários que continuaram em nossa memória: “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, “O tempo passa, torcida brasileira”, “mata no peito e põe na grama”, “o crepúsculo de jogo” que tornava as transmissões dramáticas. Tinha o entendimento, caso o jogo estivesse morno, o locutor tinha que torná-lo interessante, caso contrário o ouvinte, mudava de estação. Criou uma rica história no rádio, especialmente na Bandeirantes, onde trabalhou por mais de trinta anos.

Fiori sempre prestativo, apoiando aqueles que desejavam ingressar na carreira de locutor esportivo.  Educado, elegante e solidário, buscava tratar a todos com o necessário respeito.

Os atuais programas esportivos na televisão, ainda mantem o padrão original do rádio, um modelo com um locutor mais hostil, outro mais patético, outro grosseiro, como caricatura dos torcedores nos botequins da cidade.  

Outra iniciativa marcante, organizada por Fiori, foi o escrete do rádio, um time formado por técnicos, locutores, repórteres da Rádio Bandeirantes, que iam em direção as cidades do interior de São Paulo, para jogar e se divertirem. O sucesso de Fiori nessas jornadas foi tão numeroso, que ele colecionou 162 títulos de cidadão honorário de cidades do interior paulista.  A fama que se instalou no interior paulista, apresentou desdobramentos.  O primeiro foi a candidatura de Fiori, duas vezes pelo PMDB de Orestes Quércia, em nenhuma delas atingiu mais de trinta mil votos. O segundo foi a chegada de outros mais interessados em conseguir ganhos extras com o futebol, foram os casos de José Maria Marin, vice-governador do estado, de 1979 a 1982, quando assumiu no lugar de Paulo Maluf, ex-jogador do SPFC, denunciador e cumplice do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Marin vinha de helicóptero do Governo, pousava dentro do campo, atuava no primeiro tempo do escrete e seguia viagem no mesmo helicóptero, presidente da Federação Paulista (1985-1988) e da CBF (2012-14), preso em 2015 na Suíça, o departamento de Justiça indiciou por fraude, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, movimentou 150 milhões de dólares (mais de 470 milhões de reais em câmbio da época) em um esquema que existiu durante 24 anos. Condenado em 2017, por corrupção pela Corte do Brooklyn, em Nova York, sendo encaminhado para prisão.

Outro parceiro de futebol, J.Hawilla, logo descobriu o mercado fabuloso do futebol brasileiro, iniciou-se vendendo as placas laterais publicitárias dos estádios, até chegar a ser dono da liga de futebol dos EUA, onde foi preso por corrupção, fazendo um acordo de devolução de US$ 250,000,00, isso mesmo duzentos e cinquenta mil dólares.   

Um grande número de episódios, alguns dramáticos, como o que aconteceu durante a transmissão do jogo do Corinthians contra o Olimpia do Paraguai pela fase de grupos da Libertadores da América, que aconteceu no dia 09/04/1999, chamando pelo repórter Fábio Luiz, para apresentar as novidades do timão, o repórter não respondeu, Fiori estranhou o fato de Fabio não dar retorno a chamada no ar, o que Fiori, nem ninguém poderia imaginar era que, em vez do repórter, quem entraria no ar seria um dos operadores da transmissão. E pior: com uma notícia tão triste. “Fiori, infelizmente nosso repórter Fábio Luiz sofreu uma parada cardiorrespiratória. Não resistiu e veio a falecer”. Acompanhou o passamento dos estimados Pedro Luiz e João Saldanha, em momentos de início de fim de Copa do Mundo.

Algumas transmissões como o jogo do Corinthians em 13 de outubro de 1977, o locutor se equilibrava na linha tênue que separa a imparcialidade da paixão. Foi durante muito tempo acusado de ser mais um do “bando de loucos”.  Essa imprecisão será confessada pelo filho Marcelo de Fiori, que assegurou para a equipe de reportagem que havia ido em sua casa para entrevistar o locutor, anunciou que seu pai era conhecido como Mancha Verde, chegando a apresentar a primeira grande festa promovida pela Mancha.  Nesse dia Fiori faria a transmissão da partida do Corinthians no Pacaembu, quando percebeu que alguns torcedores nas numeradas socavam nervosamente uma mão na outra ao mesmo tempo que gritavam para o narrador. “Aí, Fiori! seu time hein?!” o locutor só entendeu quando pegou uma edição da Folha da Tarde daquele domingo, onde estava a revelação que o locutor era palmeirense.

O delicioso livro, foi acrescentado com o QR Code, as narrações marcantes de Fiori como foi o gol de Basílio em 77, o gol de Neto, gols das copas do mundo.  Esta inclusão original nos deixa vibrar com a narração de Fiori, aqueles que acompanhavam suas transmissões e aos que não eram nascidos, realmente uma oportunidade de vivenciar uma narrativa emocionante de Fiori Gigliotti. Mesmo após mais de trinta anos de dedicação à Rádio Bandeirantes, foi demitido de maneira muito constrangedora por Johnny Saad, que o aborreceu profundamente.

Uma dessas locuções formidáveis, foi durante a copa de 62, quando Pelé machucou-se e foi substituído pelo jogador Amarildo, que entrou no jogo marcando dois gols e garantindo a vitória da seleção brasileira. Sua ousadia, levou o cronista esportivo Nelson Rodrigues, chamar o jogador de o possesso, personagem dramático do livro de Dostoievski. Após essa copa o jogador deixaria o Brasil para ir jogar no Milan.

No dia da abertura da copa do mundo na Itália em 1990, uma sexta-feira, 08 de junho, eu realizava um trabalho de campo com alunos do colégio Ítaca no Butantã, estudando a urbanização, após uma visita a Aldeia de Carapicuíba, marco da história colonial jesuíta da cidade, visitamos o assentamento urbano de sem tetos, a atual COPROMO de Osasco. Nesse dia, conhecemos o esforço das famílias por moradia, o compromisso com o coletivo, as mulheres que aprenderam os ofícios masculinos e levantaram coletivamente dez torres para morarem.

A última visita, um roteiro de entrevista e um local de assinatura, o morador que acolheu o grupo de alunos, foi precisamente Amarildo, o possesso, da seleção brasileira, com documentos confirmando ser ele o substituto de Pelé na copa de 62, que jogara no Milan, atravessou dificuldades, tendo perdido tudo que conseguira, agora trabalhava como motorista de ônibus de lotação e residia no assentamento. A surpresa dos alunos, a emoção do jogador autografando os roteiros dos alunos. Sua esposa comovida, Amarildo chorava e nós comovidos diante de um herói brasileiro, no dia da abertura da Copa do Mundo na Itália.

Um livro para ter, presentear, ler junto com filhos, netos, sobrinhos, um marco de emoção do futebol brasileiro.

Ouçam QR CODE que tornou o livro muito original

 

 

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