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Casagrande e Seus Demônios

A volta por cima

Por: Rubão - Publicado em: 26/03/2021 18:59

Casagrande e Seus Demônios

Fonte:

Casagrande sempre será lembrado por seus grandes feitos, por não ter se omitido, estar sempre disposto ao enfrentamento em tempos de bajulação e covardia dos defensores da ditadura militar. Sendo um jovem periférico da zona leste, certamente que tinha que ser corintiano, estudando em escola pública, como seu colega do Barcelona espanhol, Silvinho.  Ele tomou partido e com isso ingressou para o palanque dos ousados, dos comprometidos com os interesses da ampla maioria da população, que queriam eleições diretas para presidente.

Tenho muito orgulho de tê-lo visto com seus companheiros de democracia corintiana (Sócrates, Zenon, Wladimir), declarando no vale do Anhangabaú que queriam eleições diretas ao lado de outro encantado e entusiasmado, o locutor das diretas, o grande Osmar Santos. Foi um grande momento de vida cívica e social, para o periférico Walter Casagrande júnior, o Casão da Fiel.

Buscou com entusiasmo o que merecia, aproveitar com alegria sua visibilidade, não esconder suas escolhas públicas e enfrentar o preço de tais ousadias. Uma das mais constrangedoras, bem no início de tudo, foi uma armação policial no aeroporto, onde foi acusado de estar com posse de maconha. A situação foi muito desgastante para o jogador que não dominava os mecanismos de mídia, polícia e interesses contrários aos que defendia.

Como grande parte dos jogadores, teve escolaridade irregular e posso afirmar que a sua postura libertária em relação à vida e ao futebol, tem raízes em sua paixão pelo rock. Existe ainda na sociedade uma pecha pejorativa sobre quem é roqueiro, é também maconheiro. Os desdobramentos graves de seus posicionamentos, se destacam nos relatos dramáticos de sua luta contra o vício em heroína, que terminou levando-o a uma internação e a interrupção de seu trabalho como comentarista futebolístico na rede globo.

Alguns ângulos marcantes da sua trajetória, a presença da polícia política (dops) em um show realizado no ginásio do Corinthians, a primeira festa pública realizada em nome do partido dos trabalhadores. Ele gostava muito de rock, tinha contato com artistas, tinha a tarefa de conseguir levar, após o show público, o cantor Gonzaguinha ao show do partido dos trabalhadores, no ginásio do timão. Gonzaguinha, foi, tocou e desde essa época mantém seu engajamento da democracia corintiana, prosseguindo como eleitor de Lula.

Foto: Arnaldo Fiaschi / Estadão

Foi durante um show de Peter Frampton, no ginásio do timão, que foi apresentado à cocaína. Nesse período já lutava pelo amor de sua vida e sua futura esposa e mãe de seus filhos a jogadora de vôlei Monica Feliciano, que sempre foi rígida em seus valores éticos e sociais, sendo totalmente contrária ao uso de qualquer tipo de droga. Casagrande manteve seu engajamento em questões políticas, em decorrência dessas posições e sua vinculação com a Fiel Torcida, se tornou também um ídolo dos oprimidos. Foi campeão paulista de 82 e 83, venceu a copa dos campeões da UEFA em 1987 e a Copa da Itália 92/93. Entre sua ida para Europa e seu retorno ao Brasil indo jogar no Flamengo, encontrou novamente sua Fiel Torcida em uma partida no estádio do Pacaembu, a massa preparada, quando ele entrou em campo, ouviu em todos os setores do estádio, o grito da fiel torcida, reconhecendo seu ídolo e tornando público seu desejo: “CASÃO, CASÃO, VOLTA PRA CASA, SEU LUGAR É NO TIMÃO”, continuou no Flamengo em 1993, voltou em 1994 para o Corinthians.

Se tornou comentarista da rede globo, chegando a declarar na copa da Rússia, que havia sido a única copa em que ele tinha estado inteiramente limpo. Um jogador e um cidadão que merece respeito de todos. Aqueles que tem curiosidades extravagantes de uma pessoa pública, terão os pretextos para atualizarem, como ele conseguiu pegar a psicóloga da clínica que o atendia, como conseguiu namorar com a Baby Consuelo, a roqueira louca, com anos de sexo, drogas e rock and roll, que havia se tornado pastora e podiam namorar desde que não transassem. Outras você encontra na leitura. Claro que todas as famílias têm ou podem ter um viciado, que precisa ser tratado não como criminoso, mas como um doente que precisa ser cuidado. Outras questões merecem ser discutidas como essas internações com sofrimento e humilhações, como forma de punição ao paciente que desenvolveu o vício e outras tramas que sempre trazem os conhecidos problemas. É importante ressaltar que a rede globo bancou tudo para o Casão, seus tratamentos e internações, sempre com duas terapeutas e um psiquiatra, coisa que a juventude pobre e periférica brasileira jamais terá.

Recentemente ocorreu uma discussão ao vivo, entre o Casão e Caio Ribeiro. O cerne da discussão foi uma entrevista do ex-gerente de futebol do São Paulo, o ex-jogador Raí, quando apresentou sua avaliação sobre a situação do time e analisou a situação política do país, fazendo críticas sobre um sistema que elegeu como seu representante um candidato incapaz de resolver os problemas do país.

O colunista meloso, Caio Ribeiro, assegurou que era inadmissível misturar futebol e política. Foi nesse ponto que Casão desceu a lenha no comentarista playboy. Caio, um petulante delicado, manteve sua crítica, se apresentando como um bom coroinha. Casão afirmou na lata, que ele não estava sendo transparente. Caio, não disse que seu pai é membro da diretoria do São Paulo e que havia se reunido com a diretoria para tentar a demissão de Raí. A fala de Casagrande permitiu que viesse à tona os interesses do pai de Caio Ribeiro, conhecido médico e empresário Dorival Decossau, preso em flagrante pela Polícia Federal, quando ocupava o cargo de superintendente do Hospital Matarazzo, por FRAUDAR guias de internação do INAMPS (atual INSS), causando prejuízo de R$ 100 milhões mensais aos cofres públicos. Enquadrado nos artigos 155 e 171 do código penal.  Depois de quatro meses, foi permitido pela justiça cumprir o restante da pena em casa. Tadinho.

Os demônios pessoais se tornam públicos e as dificuldades pranteadas publicamente na televisão foi um caminho combinado para o lançamento do livro CASAGRANDE E SEUS DEMÔNIOS, um momento dramático do atleta, todo seu sofrimento é escancarado, uma maneira de passar sua vida a limpo e com isso recuperar o respeito da esposa e dos filhos. Está na luta contra seu vício, com apoio e a confiança da sua fiel torcida.  

Uma boa leitura de pai para filho.

 

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